Parado a 100m de distância da praia, no meio da água, com a ilha às suas costas e o oceano a sua frente. Parado simplesmente, encarando a imensidão azul do mar se misturar com a imensidão azul do céu limpo. Com sua mente fora de foco, levando para todos os lugares e a lugar nenhum ao mesmo tempo, foi quase derrubado por uma onda e notou a formação de outra a distância e a observou se aproximar. Olhava para os cavalos brancos de Poseidon com fúria, esperando derrotá-los e manter-se em pé, fixo e estável. Mas a força era esmagadora e o empurrava para trás e ele precisava, novamente, avançar e enfrentar mais ondas daquele mar revolto.
Encarava cada "batalha" contra o mar como se fosse sua primeira e também sua última, como se daquilo dependesse a vida de quem mais amasse. Não ele, pois não se amava, não existia significância suficiente em seu ser para tal. E ele acabara de notar isto. Quando olhou para aquela confusão de azuis e a primeira onda lhe acertou o tórax com força suficiente para fazê-lo tropeçar, e ele olhou a nova batalha que enfrentaria, preparou-se e levantou o queixo (para mostrar superioridade, talvez), mas o sol lhe cegou os olhos e esta onda também o abalou. E desta vez não só fisicamente.
Neste momento ele notou quão inútil era naquele mundo, notou quão pequeno era, quão sem importância se encontrava perante esta vida. Se aquelas ondas o derrubassem ali, afogassem e o levassem dali, para dentro do oceano e para dentro da barriga de um peixe, então (quem sabe?) faria um crustáceo mais feliz pela maior quantidade de comida ou um, talvez dois, parentes chorariam pela forma que ele morrera e quão jovem era quando foi arrastado para a infinidade da morte.
No entanto, constatou: a vida continuaria. A sua continuou após a morte de tanta gente que veio ao mundo antes dele, superou a morte de parentes e amigos. A sua própria vida não parara, por que a dos outros pararia por ele? Não há motivos, certo? Ele desejava que o mundo explodisse e ninguém mais tivesse felicidade depois que ele não mais habitasse este planeta? Claro! Mas não era assim que as coisas funcionavam. A vida seguia em frente. As crianças cresceriam, viveriam e morreriam. Novas crianças iriam nascer nesse meio tempo e o ciclo não acabaria.
Parado a 100m de distância da praia, parado olhando para aquela imensidão, torcendo para que a tropa branca e inabalável não o derrubassem definitivamente, cegado pelo poder de uma estrela "pequena", entorpecido pelo sal em seus olhos e boca, afundado até acima da cintura naquela água que escondia um mundo inteiro, com os pés escorregando em areia que era capaz de cobrir todo o seu mundo e o mundo debaixo d'água, com toda a natureza ao seu redor e com todo a impotência de seu corpo frágil ele percebeu que não era só ele o insignificante da história. Toda a humanidade, todas as pessoas que ele conhecia e todas as que ele nunca vira, toda a fauna e toda a flora, todas as estrelas e toda a água da Terra, até mesmo todas as moléculas e átomos desse planeta diminuto, nada disso era realmente significante e capaz de mudar o curso do mundo se sozinho.
Uma planta é apenas uma planta se não existir para um propósito, assim como qualquer animal o é e ele mesmo se descobria sendo. Encarou uma última onda, mas sem fúria e sim com certa irmandade, encarou-a como se a abraçasse forte e desta vez não foi derrubado ou arrastado, mas permaneceu estático. Virou as costas para os azuis do mundo e caminhou para a praia, onde encontrou sua esposa e deu-lhe um beijo. Ela o olhou, com um sorriso nos olhos e nos lábios, querendo saber o por que daquele rosto tão iluminado. Ele, entendendo sua pergunta silenciosa, disse: "Acabei de perceber que sou nada sem você e quis lhe dar um beijo por estar aqui, comigo."